Programação da Fundação Roberto Marinho discutiu saúde mental, hiper conexão, segurança digital e o papel das artes na formação integral de crianças, jovens e adultos

O Festival LED é uma iniciativa da Globo e da Fundação Roberto Marinho. Foto: Thaty Aguiar.

A 5ª edição do Festival LED – Luz na Educação, realizada no Rio de Janeiro, reuniu milhares de pessoas em dois dias de intensa programação. Grandes nomes da educação, da dramaturgia e da cultura brasileira passaram pelos palcos do evento, que promoveu debates sobre os desafios do presente e do futuro da educação. O público pôde conhecer experiências inovadoras, trocar vivências e se conectar com pessoas e instituições que atuam em diferentes frentes da educação no país.

Com uma programação especialmente voltada para educadores, a Fundação Roberto Marinho reuniu mais de 800 participantes nas atividades promovidas nos espaços LED Cria e LED Dialoga. No encerramento do Palco Dialoga, o secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, João Alegria, anunciou o lançamento de uma carta-compromisso de instituições da sociedade civil pela educação integral em tempo integral.

“Nós não acreditamos em uma educação dissociada da arte e da cultura, pelo contrário, é justamente aí que ela começa. Em um momento em que o Brasil avança na ampliação das escolas de tempo integral, precisamos discutir que formação queremos oferecer nesse tempo ampliado. A escola não pode apenas dobrar o modelo tradicional de ensino. Ela precisa ser também um espaço de vivência, expressão, arte e cultura, porque essas experiências transbordam para outras áreas do conhecimento e fortalecem a construção da cidadania, das identidades e da formação humana”, comentou João Alegria.

A carta se conecta diretamente com a temática abordada no segundo dia do Festival LED: o ensino das artes e o potencial das linguagens artísticas como ferramentas de aprendizagem em diferentes áreas do conhecimento, destacando a importância da cultura para o desenvolvimento integral dos indivíduos.

Este ano, cada dia do evento foi dedicado a um grande tema. No primeiro, os debates se concentraram nos impactos das mídias digitais sobre a percepção da realidade e a saúde mental dos estudantes, discutindo como a escola pode enfrentar esse cenário de forma crítica, responsável e formativa.

O excesso de telas

O pediatra e ativista pelas infâncias, Daniel Becker, destacou os impactos psicológicos do uso excessivo de telas por crianças e adolescentes, chamando atenção para a influência dos conteúdos consumidos nas redes sociais sobre a construção da autoestima e das relações sociais. Segundo ele, muitos meninos têm sido expostos e incentivados a seguir referências masculinas marcadas pela violência e misoginia, enquanto meninas enfrentam um ambiente digital que fragiliza sua autoestima e intensifica pressões estéticas e comportamentais.
 

O especialista também ressaltou a importância de um esforço coletivo, envolvendo escola, famílias e sociedade, para reduzir o tempo de exposição às telas e promover uma relação mais crítica e consciente com os conteúdos acessados nas plataformas digitais. Daniel Becker participou do painel de abertura do LED Dialoga, que abordou o documentário ‘Anatomia do Post’, disponível no Globoplay.
 

A gerente de programas e projetos da Fundação Roberto Marinho, Sandra Sérgio, mediou a mesa “A escola como espaço da reconstrução da realidade: como formar leitores críticos nesse mundo de pós-verdades?” com as convidadas Renata Tomaz, professora da FGV Comunicação, Gabriela Lusquiños, promotora de Justiça no Estado do Rio de Janeiro e Priscila Gonsales, jornalista, educadora e pesquisadora. O debate abordou a importância da escola desenvolver tanto as competências emocionais quanto a capacidade de análise crítica dos jovens diante das informações constantes que consomem hoje.
 

“Trabalhar essas competências só é possível a partir da relação e conexão com o outro, o que não conseguimos fazer plenamente no digital. No digital, diante de um conflito, é fácil desligar a máquina ou delegar a resposta a uma inteligência artificial. No presencial, você precisa ler as emoções do outro, raciocinar rápido, mediar conflitos e argumentar. Isso é o que desenvolve nossas competências emocionais”, complementa Sandra.
 

Durante o talk “Escola, imaginação e pensamento crítico em tempos de pós-verdade”, a professora da PUC-SP, Dora Kaufman, apresentou informações como o uso da inteligência artificial transforma o ambiente escolar atual e porque acredita que a forma de avaliação dos estudantes poderia ser repensada. Além disso, Dora compreende que, apesar de serem extraordinárias, as novas tecnologias têm limitações e podem ser imprecisas, demandando uma alfabetização por parte, tanto dos educadores, quanto dos alunos.
 

“Os professores precisam entender e se capacitar sobre o funcionamento das novas tecnologias. O processo de desenvolvimento do aluno é mais fundamental do que nunca, não apenas o resultado escolar. Quando pedimos uma redação, por exemplo, a chance de ser feita por uma inteligência artificial é grande. É importante para nós, educadores, entendermos a sequência de raciocínio como um todo dos jovens”, conclui.

Arte para uma educação integral

As conversas do segundo dia do Festival LED colocaram em debate o papel das artes na educação e como processos culturais e criativos podem potencializar as práticas pedagógicas e a aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos. Os encontros defenderam uma visão ampliada de educação, que ultrapassa os conteúdos tradicionais da escola e compreende a formação humana como um processo ligado à sensibilidade, à criatividade, à convivência e à preparação dos sujeitos para seus projetos de vida.

Paulo Pires, professor e comissário do Plano Nacional das Artes de Portugal, ressaltou que o direito à cultura não deveria ser compreendido apenas como o acesso às produções culturais, mas também como o direito de ser um agente ativo na produção cultural. Para ele, a integração entre arte e educação escolar tem um papel fundamental ao ampliar o horizonte de possibilidades dos estudantes. “Arte e cultura ajudam a superar barreiras sociais e econômicas que muitos alunos têm no seu contexto de origem. Além disso, essas linguagens ajudam as pessoas a se entenderem e se comunicarem com o mundo”, avalia.

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Da esquerda para direita: João Alegria, Celso Melo, Olga Olaya e Paulo Pires. Foto: Thaty Aguiar.

A mesa “Ensinar a perguntar: curiosidade, arte e criatividade como método de aprendizagem” foi mediada por Matheus Corassa, professor da rede pública de educação do Espírito Santo, com participação de Carolina Sanches, autora, curadora e consultora em leitura e edutainment, Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira e presidente da Mangueira do Amanhã, e Diana Kolker, coordenadora de educação e arte no Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea. O grupo discutiu como a cultura pode agregar e ampliar a educação formal das escolas a partir de uma troca constante com as famílias, mas, principalmente, com os próprios alunos.

Evelyn Bastos destacou como a arte e a literatura não devem ser apenas um mecanismo complementar, mas uma parte fundamental da formação e da construção das crianças e adolescentes como cidadãos. “O ir e vir do território da escola formal e da Mangueira fazia com que eu pudesse circular em ambientes que me ensinavam e podiam me agregar enquanto uma mulher da favela, que conhecia o samba e aprendia não só pela arte, mas também poderia levar para dentro da escola formal esses saberes culturais com muito orgulho”, comentou.

Aprofundamento e prática

Além dos debates que acontecem nos palcos, o Festival LED também promove um espaço imersivo voltado ao aprofundamento e à prática: as oficinas do Espaço Cria. Neste ano, foram realizadas 13 oficinas conduzidas por diferentes instituições atuantes nos campos da educação e do trabalho.

Organizada pela supervisora de inclusão produtiva da Fundação Roberto Marinho, Alzira Silva, pela líder de projetos educacionais da Fundação Roberto Marinho, Adriana Trindade, e pela especialista em metodologias de aprendizagem, Gisele Andrade, a oficina “Desponta – como engajar as juventudes e fortalecer o sentimento de pertencimento” apresentou, na prática, um dos eixos de formação do Desponta, iniciativa de pré-aprendizagem recém-lançada pela Fundação Roberto Marinho.

Por meio de atividades individuais e coletivas, a oficina incentivou os participantes a refletirem sobre o uso das redes sociais e, principalmente, sobre como elas influenciam seus sentimentos. A proposta buscou orientar estudantes e educadores sobre formas de aplicar as ferramentas do Desponta, um conjunto de materiais pedagógicos voltados aos pré-aprendizados necessários para preparar jovens para o mercado de trabalho.

Alzira destacou a importância da iniciativa e da ampliação das discussões sobre o mundo do trabalho desde a escola. “Queremos, com esse material, apoiar educadores de diferentes contextos, desde professores do ensino fundamental até assistentes sociais. É uma forma de introduzir o debate sobre trabalho e oportunidades de estudo ainda no Fundamental II, apoiando as juventudes na construção de seus projetos de vida.”

Um dos participantes da atividade foi o educador Fábio Nascimento. “Como professor e, atualmente, diretor escolar, foi muito gratificante participar do conteúdo apresentado hoje e aprender como aplicar o material do Desponta nas minhas atividades. Tenho certeza de que ele vai potencializar o trabalho de outros educadores, principalmente como uma forma de repensar os processos de aprendizagem nas escolas”, relata.

A exposição online e os riscos enfrentados por crianças e adolescentes no ambiente digital foram tema da oficina “Conectados com responsa: educação digital para crescer com segurança”, conduzida por Guilherme Alves, gerente de projetos da SaferNet Brasil, Priscila Pereira, líder de projetos educacionais da Fundação Roberto Marinho, e Marcia Frizzo, especialista em Segurança da Informação da Globo.

Impulsionada pelo debate em torno do ECA Digital, a atividade promoveu reflexões sobre segurança, privacidade, respeito e uso responsável da tecnologia, fortalecendo a cidadania digital e o pensamento crítico para uma convivência online mais segura e consciente. Os mediadores também apresentaram ferramentas e iniciativas que podem auxiliar escolas e famílias na prevenção e no enfrentamento das violências digitais.

“Foi muito importante ver esse tema presente no Festival LED, não apenas na nossa oficina, mas em diferentes espaços do evento. As tecnologias fazem parte da vida das pessoas e mudam rapidamente, mas o uso seguro e consciente delas se aprende — e a educação tem um papel central nesse processo. Precisamos continuar qualificando esse debate e fortalecendo uma cultura de mais proteção, participação e cuidado, para que crianças e adolescentes consigam enfrentar os riscos do ambiente digital sem deixar de aproveitar o que a tecnologia também pode oferecer de positivo”, destacou Guilherme Alves.

Realizado pela Globo e pela Fundação Roberto Marinho, com apoio da Editora Globo, a 5ª edição do Festival LED contou com patrocínio da Fundação Bradesco e parceria estratégica do SEBRAE. O Movimento LED Globo – Luz na Educação mapeia, ilumina e reconhece práticas que estão transformando vidas através da educação.

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