
Gilvania Guedes Teixeira Véras – Psicóloga Casa Durval Paiva – CRP: 17/4268
Vejo um menino entrando no hospital. Uma mão agarrada à da mãe, a outra segurando com firmeza uma espada de brinquedo. De um lado, o medo, um velho conhecido indesejado. Do outro, a coragem de enfrentar tudo à sua maneira. A mãe, adulta, acredita que enfrentará todos os monstros do dia e, assim, livrará o filho de todo mal. Mas ele, em sua infantil sabedoria, já entende: será ele quem enfrentará os monstros, com a mãe ao lado, como a guerreira que dá força à sua espada.
Qualquer diagnóstico representa uma ruptura na vida de uma criança, um momento de crise. Tomar remédios, receber injeções, fazer exames… nada disso faz parte da rotina de quem está saudável. Quando o diagnóstico é oncológico, carrega ainda o peso da palavra câncer. Um peso que não é dito em voz alta, porque “essas coisas” não se falam para uma criança. Mas, ainda assim, ela percebe. Percebe no clima de segredo, no sofrimento disfarçado, no rosto da mãe vermelho e molhado seguido de um “não é nada, filho”. E, claro, nas mudanças bruscas e escancaradas na rotina.
Mas, afinal, como é possível continuar sendo criança diante de tudo isso? Voltemos ao começo: a espada de brinquedo. Ela não é apenas um enfeite. É a maneira que aquela criança encontrou para enfrentar um mundo que de repente ficou assustador. Brincar, imaginar, transformar seringas em dragões e corredores em castelos é uma forma legítima de enfrentamento infantil.
É nesse contexto que a ludoterapia ganha relevância. Segundo Pereira (2021), trata-se de uma intervenção terapêutica crucial para auxiliar crianças a lidarem com sentimentos negativos e melhorarem sua qualidade de vida. O apoio psicológico é essencial desde o diagnóstico até o final do tratamento, não apenas para a criança, mas para toda a família envolvida. E nessa jornada, a presença da mãe, ou de quem cuida, é um escudo invisível, um abraço constante que sustenta.
Conforme Vieira (2025), a capacidade dos profissionais de oferecer acolhimento, demonstrar amor, carinho e respeito, e estabelecer laços de confiança com a família contribui para um ambiente hospitalar mais humano e seguro, o que, por sua vez, beneficia a criança ao proporcionar-lhe conforto e estabilidade.
Além disso, há espaços que acolhem com mais do que paredes. Acolhem com a alma. A Casa Durval Paiva é um desses lugares. Aqui, cuidamos de crianças e de suas famílias, porque sabemos que o tratamento não é só feito de medicamentos, mas também de presença, afeto e esperança. Nesse refúgio, as histórias se tocam, os silêncios falam, e os olhares dizem: “você não está só”.
As crianças podem encontrar em outras a certeza de que é possível atravessar esse desafio brincando, rindo, chorando, vivendo. E é nesse encontro com o outro, nesse cotidiano compartilhado, que a infância insiste em florescer, mesmo em solo árido. Porque onde há cuidado, há vida, e onde há vida, a infância resiste.
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“Não aprendi a dizer adeus”: o profissional também sente a partida do paciente
Keillha Israely – Assistente Social Casa Durval Paiva – CRESS/RN 3592
Como diz a música, não aprendi a dizer adeus. Apesar da morte ser uma das únicas certezas na nossa vida, nós não estamos preparados para lidar com ela, e como é difícil se despedir, principalmente de alguém que gostamos.
Ao longo dos 7 anos de atuação, como assistente social, na casa de apoio à criança com câncer Durval Paiva, já perdi vários pacientes. Muitos, não consegui me despedir, porque foram partidas primárias: no hospital, em casa. Enfim, não foi possível fazer um fechamento. Mas, hoje eu quero compartilhar como foi difícil, me despedir de um paciente muito querido, que já está num processo de fim de vida e que me ensinou muito sobre a vida e o viver.
Vou me referir a ele como o popular, para preservar sua identidade. Ele tão articulado e articulador, chegou na instituição em 2021, para tratar um câncer ósseo. Menino do interior, cheio de sonhos, precisou parar um pouco sua vida para tratar uma doença tão severa, com internações longas, quimioterapia e depois uma longa cirurgia, vivenciou a primeira fase desse tratamento tão difícil. Depois, quando chegou uma etapa mais tranquila, resolveu desafiar orientações, e precisou enfrentar uma nova cirurgia, a possibilidade de perder a perna assustava, e ele era enfático em dizer que não aceitava, pediu ao médico e dizia a todos, sem minha perna eu não vivo.
Vivenciou mais cirurgias e quimioterapia, e a doença, cruel e nefasta não dava trégua, começou a invadir tudo, e a vida que ela tanto falava e queria desfrutar foi ficando cada vez mais difícil, pois, à medida que a doença avança, vem seus dissabores, dores, náuseas, internamento longo, enfim, tudo vai ficando mais difícil. Mas, ele, na oportunidade que encontra, vai para as festas, tira foto e faz vídeos com os artistas e, assim, vira um artista também, cheio de fé e perseverança ele vai vivendo e sobrevivendo. E, agora, nesse processo de fim de vida, ele precisa encarar também as marcas dessa doença tão grave e cruel, que assusta e afasta a muitos, mas também que não afasta quem o ama. Ele, logo ele que queria tanto viver.
Hoje, na sua “última” consulta, a médica pediu para ele evitar essa viagem longa e aproveitar a vida vivendo perto da sua família, amigos e no seu interior. E eu, que acompanhei todo processo me sinto na obrigação de aproveitar essa oportunidade e me despedir, mas como? Eu não aprendi a dizer adeus. Mas, soube chegar, segurar a mão, dizer que apesar de todo o trabalho que ele me dá, eu o amo muito e quero sempre o melhor para ele, e que desejo que ele viva, viva cada minuto e segundo. E ao falar para ele é como se falasse para mim também. Saio do quarto quase correndo, respiro fundo, seguro as lágrimas, afinal, outros pacientes estão me esperando. E o choro ficou para depois, pois não aprendi a dizer adeus, mas sofro e sinto com cada partida e despedida, assim como, muitos outros colegas assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, médicos, pois nós também sentimos e sentimos muito.