Sequência de workshops em Natal coloca IA aplicada à engenharia, contabilidade e gestão empresarial no centro do debate sobre produtividade e inovação

A Inteligência Artificial começa a avançar da experimentação para a rotina de empresas e profissionais no Rio Grande do Norte. Nas próximas semanas, Natal recebe três encontros dedicados ao uso prático da tecnologia: o Bootcamp IA para Engenharia – CREA-RN, dia 24 de agosto, dirigido a profissionais de engenharia; o Bootcamp IA para Negócios – CRC-RN, voltado a contadores, previsto para 10 de setembro; e o Bootcamp IA para Negócios – Rui Cadete Contabilidade, destinado a empresas interessadas em aplicar IA em processos administrativos e contábeis, previsto para 11 de setembro. A sequência de eventos, conduzida pela Amplify, empresa especializada em Inteligência Artificial, ocorre em um momento em que a adoção da tecnologia cresce no país e em que o ecossistema potiguar de tecnologia ganha escala.

Os dados mais recentes mostram a velocidade dessa mudança. A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, aponta que 17% das empresas brasileiras já utilizavam Inteligência Artificial em 2025, ante 13% em 2024. O avanço foi ainda mais expressivo entre as grandes empresas, nas quais a adoção passou de 38% para 50%. Entre as pequenas, que representam 87% das empresas consideradas pela pesquisa, o índice subiu de 10% para 15%.

O levantamento anterior mostrava que, em 2024, 12% das empresas do Nordeste utilizavam IA, contra 13% no conjunto do país. Ou seja, ainda há potencial enorme de crescimento. Entre as empresas nordestinas que já empregavam a tecnologia, as aplicações incluíam marketing e vendas, administração, gestão, processos produtivos, logística e recursos humanos.

Para Leonardo Camacho, Diretor de Novos Negócios da Amplify, os números apontam para uma disputa que ainda está só no começo. “A oportunidade está justamente no fato de que a adoção ainda não está massificada. O profissional ou a empresa que aprender agora a identificar processos em que a IA realmente gera resultado pode construir uma vantagem competitiva antes que essa tecnologia se torne padrão em todos os setores”, afirma.

Transformação potiguar

No Rio Grande do Norte, essa transformação encontra um ecossistema tecnológico que já tem dimensão econômica relevante. O Metrópole Parque, ligado ao Instituto Metrópole Digital da UFRN, por exemplo, encerrou 2025 com 182 empresas associadas e 3,4 mil empregos diretos, segundo balanço divulgado pela universidade. Em junho de 2026, uma atualização do parque apontou 205 empresas de tecnologia da informação associadas e cerca de 3.500 postos de trabalho, colocando o empreendimento entre os principais polos de inovação do Nordeste.

“O RN já tem uma base tecnológica que não pode ser ignorada. A existência de mais de 200 empresas de tecnologia reunidas em torno de um ecossistema como o Metrópole Parque mostra que há conhecimento, profissionais e negócios capazes de absorver essa nova onda. O próximo passo é levar a IA para setores que estão fora da tecnologia, porque é aí que existe uma parcela enorme do ganho de produtividade”, diz Camacho.

A escala potencial dessa transformação é global, mas seus efeitos podem ser capturados localmente. Estudo do McKinsey Global Institute estima que a IA generativa tenha potencial para acrescentar US$ 2,6 trilhões a US$ 4,4 trilhões por ano em valor à economia mundial, considerando 63 casos de uso em diferentes funções empresariais.

A pesquisa mais recente da consultoria também indica que 88% dos respondentes afirmam que suas organizações utilizam IA em pelo menos uma função de negócio, embora a maioria ainda esteja longe de escalar essas soluções por toda a empresa.

É justamente essa distância entre experimentar e incorporar a tecnologia que ajuda a explicar a importância de iniciativas de capacitação profissional. “O ponto não é simplesmente colocar uma ferramenta de IA na mão de uma equipe. É entender o processo, identificar onde existe desperdício de tempo ou informação e redesenhá-lo. Na engenharia, isso pode significar trabalhar melhor com documentos, projetos e análises; na contabilidade, automatizar tarefas repetitivas e ampliar a capacidade analítica; nas empresas, reorganizar atendimento, vendas, gestão do conhecimento e processos internos”, afirma Camacho.

A própria economia potiguar oferece diferentes campos para essa aplicação. O Ministério da Agricultura e Pecuária identifica no RN um ecossistema de startups e empreendedorismo inovador em expansão e destaca a articulação entre governo, empresas e instituições acadêmicas para estimular novas empresas de tecnologia. Na política estadual de ciência, tecnologia e inovação, aparecem como áreas prioritárias o desenvolvimento de setores estratégicos, o desenvolvimento econômico sustentável do semiárido, a inovação na gestão pública, a inovação nas empresas, os parques científico-tecnológicos e a pesquisa aplicada.

Para Camacho, a combinação entre infraestrutura tecnológica, formação profissional e setores econômicos tradicionais pode transformar a IA em uma ferramenta de desenvolvimento. “O Rio Grande do Norte não precisa esperar que a transformação aconteça em outros centros para depois importar soluções. Existe uma oportunidade de construir aplicações localmente, formar pessoas e criar empresas capazes de vender conhecimento e tecnologia para o próprio Estado e para outros mercados”, avalia.

O desafio passa a ser transformar essa janela tecnológica em produtividade, novos negócios e qualificação profissional. A existência de um polo como o Metrópole Parque, que reúne centenas de empresas e milhares de trabalhadores, cria uma infraestrutura favorável para que conhecimento e inovação circulem entre universidade, startups e empresas. Em paralelo, programas públicos de ciência e tecnologia já colocam inovação empresarial, pesquisa aplicada e parques tecnológicos entre as prioridades do Estado.

“A grande oportunidade para o RN é formar uma geração de profissionais que não apenas saiba usar IA, mas saiba pensar com IA sem deixar de pensar por conta própria. Quem conseguir combinar conhecimento de sua profissão com capacidade de trabalhar com essas novas ferramentas terá condições de produzir mais, criar novos serviços e competir em mercados muito maiores do que o regional”, conclui Leonardo Camacho.

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